Confesso que fiquei bastante confuso com a notícia da suspensão(?) do Jornal Nacional da TVI. E, também, não gosto de saltar para as conclusões (tradução literal da expressão inglesa jump to conclusions).
Por um lado, parecia-me improvável que o socialismo governante fosse tão estúpido ao ponto de forçar uma decisão destas, neste preciso momento – embora eu saiba, por experiência própria, que estas criaturas fizeram anteriormente coisas tanto ou mais maldosas e improváveis que esta, sem que alguém acreditasse que tal era possível.
.
Por outro lado, não conseguia perceber a lógica masoquista desta decisão da administração da TVI. A agravar esta confusão ainda, o jogo do empurra entre as administrações da TVI e da Prisa quanto à responsabilidade da decisão.
As empresas são organizações que se destinam a criar mais-valia, a dar lucro, pelo que não é compreensível que uma administração (qualquer administração) tome uma decisão que venha provocar um tão óbvio e imediato prejuízo à sua própria empresa. A não ser... que esse prejuízo imediato seja compensado com uma perspectiva (ou promessa) de ganho futuro. Assim já faria sentido.
Contudo, um percurso racional só faz sentido se partir de factos e não de suposições. Vejamos, então, alguns factos conhecidos:
- A Prisa encontra-se numa difícil situação financeira, com uma dívida de 5 mil milhões de euros e a obrigação de pagar a curto prazo 1, 95 mil milhões de euros.
- Por isso, no passado Junho a Prisa estava vendedora à PT de 30% da Media Capital – a empresa proprietária da TVI e cujo controle a Prisa detém desde o final de 2006 (mas o negócio não chegaria a realizar-se após as ameaças do próprio executivo socialista que vetaria a decisão dentro da administração da PT).
- A Media Capital não vendeu uma única acção em bolsa durante vários dias, até ontem ter desvalorizado cerca de 15% após o anúncio da suspensão do Jornal Nacional.
- No passado dia 5 de Agosto, José Eduardo Moniz sai subitamente da TVI e ocupa a vice-presidência da empresa Ongoing, a qual manifestou o seu interesse para adquirir os 30% da Media Capital que a Prisa pretende alienar, "mas o negócio está, para já, suspenso".
Perante estes factos, parece-me bastante claro que a Prisa está a por a Media Capital a jeito (perdoem-me o vernáculo, mas não há melhor forma de o dizer) para uma OPA. Aliás, tão a jeito, tão a jeito, que irá provavelmente obter uma Takeover (hostil or not).
As constatações finais são: alguém só se põe a jeito assim para outrem muito especial e ninguém se põe tão a jeito sem querer qualquer coisa em troca.
Este texto foi publicado primeiro aqui.